quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A leitura e o leitor

Há tempos que o homem convive com a leitura. Os egípcios, na figura dos escribas, já "liam" sinais e os declamavam para a sociedade que não os sabia "ler". Era a época da leitura verbal, e o escriba era o soberano da informação, pois só ele entendia os tais sinais e as elaboradas marcações existentes. Hoje, a leitura é silenciosa, individual e privada. Ela cria no leitor um sexto sentido que, unido à sua inteligência, transforma-o em um ser com capacidades "sobre-humanas", como recordar algo importante ou ter bibliotecas inteiras memorizadas. Por isso, o ato de ler deve ser ensinado às crianças, para que elas, no futuro, sejam os cidadãos super-homens, com seis, nove, vários sentidos. Ensinar a ler não é forçar a criança a escrever a mesma frase várias vezes, ou pedir a que ela "cace" palavras com o mesmo número de sílabas em um texto, ou, ainda, mandá-la grifar os sujeitos de orações que estão soltas, sem nenhuma conexão entre elas. Isso afasta as crianças da leitura, pois são tarefas parecidas com castigos. Ensinar a ler é fazer com que o pimpolho sinta o aconchego do texto e o calor das histórias. Que ele seja atraído pela leitura e que a deseje. Desejando-a, sentirá prazer em ler. E não estou falando da leitura de textos na internet (rápidos e, muitas vezes, vazios) ou da leitura de documentos burocráticos. Essa leitura já ocupa 70% de nosso dia. Refiro-me à leitura cultural, aquela que serve para a mente e para o espírito, aquela que nos enriquece. Uma leitura que é infinita em seus significados e que é para sempre. Não deixemos que a época em que poucos liam volte. Lutemos para que a leitura continue sendo silenciosa e sagrada. Do contrário, viveremos em uma sociedade onde a figura do escriba egípcio voltará em forma de "chat", ditando-nos seus textos e deixando-nos sem opções de referências literárias.
Referências de leitura (valem MUITO a pena): "História da Leitura", de Steven Roger Fischer; "Do Mundo da Leitura para a Leitura do Mundo", de Marisa Lajolo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A extinção de uma cultura

Esta é a aldeã Gyani Maiya Sen. Ela nasceu no Nepal, tem 75 anos e é a última falante da língua kusunda. O povo da tribo kusunda, por sofrer preconceito de outros povos do Nepal que o consideram inferior, abdicou de sua língua. Poucas pessoas da etnia kusunda ainda existem (não chegam a 100, segundo o último censo nepalês, realizado em 2001), pois elas escondem a própria origem a fim de conseguirem melhor aceitação na sociedade. A última pessoa com quem Gyani usou a língua foi sua mãe, morta há 25 anos. Apesar de ter filhos, Gyani, pelo motivo acima, deixou de usar a língua kusunda. Agarrado há um tipo de esperança que só um linguista pode ter, o estudioso nepalês, Gautam Bhojraj, aprendeu o idioma kusunda e usa-o com Gyani para que a língua não desapareça. Um lindo trabalho para preservar toda a cultura de um povo. Se, por acaso, a língua kusunda desaparecer, a história, os costumes, a inteligência e a organização de uma sociedade sumirão com ela. Gyani está animada. Ela afirma que, se continuar falando em sua língua materna, ela não desaparecerá. Uma parte da história da humanidade está nas mãos, ou melhor, na boca de duas pessoas: da simpática Gyani e do destemido Gautam. Tomara que eles tenham sucesso, pois, do contrário, uma sociedade, hoje praticamente representada por uma senhora de boa vontade, será extinta. E com ela, um pedaço da memória dos homens. Fiquei comovido  com esta história lendo-a na revista "Língua Portuguesa" nr. 82, edição de agosto deste ano, da editora Segmento. Quiz dividi-la com você.

terça-feira, 31 de julho de 2012

É muita coisa!

Somente depois de bocejar e tirar o peso da noite que ficou sobre o cobertor, escovar os dentes, sorrindo e espumando para o espelho, tomar uma xícara de café e comer as migalhas do pão diet que esfriou por conta do vento que entrou pela porta que já estava aberta convidando-me para sair e malhar na esteira da rua enquanto os spams derrubavam minha conexão que só se restabeleceu quando voltei e sentei, com dor nas costas, na cadeira que diariamente me prende nas bordas de meu notebook, e depois que as horas viajaram para algum lugar sem me avisar, fazendo com que meu estômago se encarregasse de dar o recado que elas estavam indo, e que, depois de tanto eu ouvir seus gritos e resolver enterrá-lo com arroz e feijão para poder, restabelecido, ir ao supermercado findar uma lista de necessidades mais que humanas e voltar para casa com sacolas de encher armários, botar o cachorro pra fora e responder às chamadas do celular que estava trancado no bolso da calça que rasguei na correria para atender ao chamado da campainha onde o vizinho fazia questão de devolver a colher de açúcar que ele havia tomado emprestado na páscoa passada quando os netos dele estavam por aqui em visita e acabaram quebrando a minha vidraça com a maldita bola que ele havia comprado de presente pelo bom comportamento deles, é que percebi que ainda não havia feito o mais importante do dia: desejar BOM DIA ao meu dia.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

No ônibus

- Olá, tudo bem?
Levantei a vista que estava mergulhada na leitura do Valter Hugo Mãe em meu colo e olhei para a dona da mão que cutucava meu joelho (tem gente que cutuca). Não reconheci a mulher que sorria, feliz por ter reencontrado um amigo. Como tenho, às vezes, uma certa dificuldade para me lembrar de pessoas e, mais ainda, de seus nomes, devolvi-lhe o cumprimento, educadamente.
- Ai, desculpe-me! Achei que você fosse um personal trainer que eu conheci.
- Sem problemas, respondi sorrindo, retornando à leitura e ao universo do Hugo Mãe.
- É que (novo cutuque, já parecendo mais íntimo), como você está usando esse agasalho da Adidas, acabei me confundindo.
- Como disse, sem problemas, mesmo! Acontece (só os profissionais de atividades físicas podem usar agasalhos de ginástica?). Tentei voltar à leitura.
- O que você está lendo? (Tentando ler, você quer dizer.)
- Um livro de um escritor angolano, Valter Hugo Mãe.
- Ahhh..não conheço. É bom?
Bom? Bom, nesse instante percebi que minha leitura estava, definitivamente, interrompida. Também percebi que a mulher não estava interessada em trocar conhecimentos literários, mas em me conhecer.
- Estou adorando, ainda não havia lido nada dele (mas vou continuar tentando lê-lo, mesmo que o mundo me interrompa).
- Ah! Eu li muito quando estava na faculdade, há uns cinco anos. Li filosofia e livros técnicos, sou formada em turismo, e você? (Sou bacharel em paciência.)
- Sou administrador de empresas e curso pós em língua portuguesa e literatura.
- Ah! Que legal. É casado? Quantos anos você tem?
Veja, não sou contra a novas amizades, nem a uma conversa simpática em um coletivo, mas o rumo do papo iniciado com um cutuque estava estranho. Que perguntas são essas? Era como se eu estivesse preenchendo um questionário de algum site de relacionamento.
- Solteiro, 47 anos, respondi, já adivinhando a próxima pergunta.
- Solteiro? Nunca pensou em se casar, ter filhos? Você namora? (Na verdade, sou um ex-presidiário, solto recentemente, que foi condenado por assassinar pessoas que não têm um pouco de noção do "me deixa".)
- Não, não, estou bem assim.
- Meu sonho é casar e passar a lua de mel na Dinamarca (lugar ideal, pois você se parece com um personagem das histórias de Andersen). Em que ponto você vai descer?
Medo! Pânico! O que fazer? Certamente ela iria descer junto comigo e querer me acompanhar. E eu não estava a fim de ser convidado para uma lua de mel na Dinamarca, nem que Valter Hugo Mãe me acompanhasse.
- Na verdade, meu ponto passou, veja você que distração a minha.
E desci correndo quando o ônibus parou, com um "até logo" surpreendente.
Após descer, fiquei pensando sobre a abordagem da mulher e sobre a minha atitude. Não sei se agi corretamente evitando me aprofundar na conversa. Agi como age um habitante de cidade grande, cheio de individualismo urbano. Eu poderia ter conseguido uma nova amizade ou uma companhia para o meu dia. Fiquei surpreso pelo papo que surgiu do nada, no caso com uma desconhecida, e pela minha indignação por causa das perguntas diretas e íntimas. Isso serviu como um escudo, impedindo a aproximação de alguém que, de repente, queria apenas conversar e fazer um novo amigo. Prometo que os próximos "olás" e "cutuques" serão tratados de maneira mais receptiva. Afinal, o Valter Hugo Mãe estará sempre à mão, servindo, inclusive, como ponte para novas amizades.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mudar para não se congelar

Na lista das coisas de que eu não gosto está o inverno. Ou estava. Para mim, o inverno sempre teve cara feia, cinza, mofada, vontade de fazer nada, só de ficar em casa me cutucando. Hoje pela manhã, em minha caminhada na rua pós-treino (sai, banha invernal!), eu pude perceber, pela primeira vez, a estação do ano que, ate então, fazia-me rezar para o Santo Aquecimento Global, rogando-lhe para que a excluísse de meu calendário. Mudei de opinião. Andando sob a garoa cintilante de um céu cinza brilhante, o frio que respirei limpou-me por dentro. O movimento imperceptível das árvores parecia me dizer "olhe, o frio também é bom, pois, sem ele, não haveria a possibilidade de, daqui a algum tempo, por exemplo. as flores servirem-lhe de companhia". Daí, comecei a enxergar o inverno de outra forma. E fiquei orgulhoso de mim conseguir mudar de opinião. O que congela não é o inverno. O que congela é acreditar, sempre, nas mesmas coisas. É não se permitir enxergar as mudanças e mudar junto com elas. Renovar-se é necessário. Não deixe que os seus conceitos o envelheçam, para isso já basta o passar dos anos. Use um bom creme para as rugas e esteja sempre de braços abertos para receber o novo, evitando se congelar. Quem está calcificado em pedra dura é fóssil. Experimente a comida que você acha de que não gosta e o lado da calçada que você tem medo de andar. Ouse ler poesia, mesmo não entendendo nada (poesia que se entende não presta). Dance no ritmo da música que você julga vulgar, seja mundano. Seja mutável. Ame de maneira nova, renove sua ideia sobre o amor, para ter mais possibilidades de amar e de ser amado. Gostei do que percebi hoje. Não é o inverno que tem de me perceber, cabe a mim percebê-lo. Faça como eu: relacione, em uma lista, as coisas de que você não gosta e experimente-as de uma maneira nova. É ótimo ver a lista diminuindo de tamanho. Vale ligar para o vizinho chato e convidá-lo para uma cerveja. Quem sabe ele não aparece com um bom papo para espantar o inverno.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Adivinhe quem vem para jantar?

Seguem algumas dicas: ele visita todos os brasileiros no meio do ano. Gosta de roupas pesadas e de chocolate quente. Dá tregua para os ventiladores e adora um cobertor de orelhas. É o inverno. Chega hoje, dia 20/06, às 20h09, na hora da janta. E nem tente querer postergar a visita. Não vai ter jeito. Melhor se preparar para recebê-lo com um delicioso brodo com capeletti (ponha pitadas de tomilho e pimenta-do-reino para deixá-lo mais quente ainda), umas boas meias de lã e um cobertor (aquele mesmo, guardado desde a última visita de nosso amigo friolento). Uma companhia para um vinho tinto também é uma boa ideia. Se acompanhado de queijos e de um blues então, o negócio pode pegar fogo! Poderá fazer com que a visita inevitável fique quietinha e nem atrapalhe muito. Mas, caso o inverno seja a sua única companhia para jantar, não se preocupe. O poeta chileno Pablo Neruda pode ajudá-lo. Seu livro "Jardim de Inverno", editora L&PM (a edição tem um preço bem justo) publicado postumamente como uma despedida, inclusive com trechos que deixam claro o seu adeus, aquece a alma e o coração. Tenho certeza de que o "calor" provocado pelos poemas de Neruda irá deixá-lo bem quentinho.Daí você poderá abrir a porta para o colega invernal sem receio de passar frio. Só para você ficar com vontade de ter o Neruda hoje à noite junto com uma bebida quente, vai um excerto, um poema, do livro. "Que tenhamos tempo e tinta para todos que gostamos, com os quais compartilhamos os pedaços felizes e substanciais da existência". Divirta-se e bom inverno.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O amor mata

Ah!, O amor! Dizem que pode matar. Sim, matar! E não estou me referindo aquela coisa de "morreu de amor", como a Dama das Camélias, de Dumas Filho, que, na verdade, morreu de tuberculose. Estou falando de morrer amando. Veja a situação de alguns insetos. Os machos morrem quando fecundam as fêmeas, outros morrem nas "mãos" da própria fêmea após o ato "amoroso". A falta do "amor" para os insetos, faz com que suas vidas durem até a próxima primavera (reflitam sobre isso, aranhas!). Há quem acredite que amar é perder uma parte da alma para o objeto amado. E se há ejaculação, então, nossa! Junto com a porra toda, vão-se alguns anos de vida. Na Grécia antiga, os atletas não faziam amor. Poupavam-se do gozo e essa moderação fazia parte do treinamento, poupando-lhes energia e força. E se houver trepadinhas constantes, danou-se. Dizem que o excesso de cama (obviamente não para tirar uma sonequinha) encurta a vida. E mais: quando o indivíduo apaixonado perde sua capacidade de procriar, é porque a morte está próxima. Pois é, é o amor. Mas, apesar disso tudo, amamos. E ainda bem que amamos e que morremos de amor. Coisa chata seria não amarmos. Isso sim seria morrer. Seria como jogar a vida na descarga ou incinerá-la. Melhor ser incinerado pelo amor e morrer com cara de gozo, uma vez que a morte virá de qualquer jeito. Tá bom, eu sei que, às vezes, não é sereno amar, mas mesmo assim, vale a pena. É como a ressaca, o dia seguinte da bebedeira. Vale a pena. Eu quero que todo dia seja dia dos namorados. Quero que o veneno dos amantes seja expelido a todo instante. Quero que o amor assassino faça parte da vida de todos os malucos suicidas que não aceitam viver sem amar. E sem trepar. E sem morrer.    

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O hífen nosso de cada dia PARTE II

Conforme prometido, seguem mais algumas regras simplificadas com intuito de nos ajudar a conviver com o nosso amigo hífen sem ter vontade de matá-lo de vez como fizeram com a trema (afinal, para que serve o hífen?). Lembrando que as regras aqui dispostas são consequência do novo acordo ortográfico da língua portuguesa.
USA-SE HÍFEN:
- Com os prefixos EX, VICE, PRÉ, PRÓ E PÓS (ex: vice-presidente, pré-história, ex-esposa, etc);
- Quando a consoante do final do prefixo for igual a do segundo elemento (ex: inter-racial, super-revista, hiper-raquítico, etc) note que, se não houvesse hífen, a fonética da palavra mudaria;
- Quando o prefixo terminar em R, B ou VOGAL e o segundo elemento começar com H (ex: super-homem, sub-humano, anti-herói). Aqui, como na regra anterior, se não fosse pelo hífen, a fonética da palavra mudaria;
- Em palavras compostas, sem preposições que as ligue, quando o primeiro elemento for substantivo, adjetivo, verbo ou numeral  (ex: amor-perfeito, boa-fé, guarda-noturno, criado-mudo, decreto-lei), MAS não se esqueça do que vimos anteriormente. SE a noção de composição desapareceu com o tempo, o hífen está fora, como em pontapé, paraquedas, paraquedismo, mandachuva, girassol (para saber se a noção de composição de uma palavra formada por dois elementos desapareceu, reze!).
- E veja só: para os demais casos com os verbos PARAR e MANDAR, bote o hífen! (ex: para-brisa, para-choque, manda-tudo, etc). Viu como a reza é necessária? Por que não parabrisa e parachoque?
- Quando os elementos forem repetidos (ex: tico-tico, tique-taque, pingue-pongue, etc);
- Quando o composto tiver apóstrofo (ex: cobra-d'água, mãe-d'água, etc);
- Em nomes geográficos compostos com GRÃ, GRÃO ou VERBOS (ex: Grã-Bretanha, Grão-Pará, Passa-Quatro), MAS (já vimos isto), para os demais nomes geográficos, o hífen está liberado (ex: América do Sul, Cabo Verde, etc) Gosta de exceção? Lá vai: Guiné-Bissau continua com hífen;
- Nos compostos que designam espécies animais e vegetais (ex: bem-te-vi, couve-flor, joão-de-barro, não-me-toques, coco-da-bahia, etc), MAS (ai, ai) se a palavra for usada em sentido figurado, nada de hífen (ex: ele tem cara de feijão verde);
- Com o prefixo MAL antes de VOGAIS, H ou L (ex: mal-estar, mal-acabado, mal-humorado, etc). Vale dizer que, MAL no feminino, leva hífen (ex: má-lingua);
- Com os prefixos ALÉM, RECÉM, AQUÉM, BEM e SEM (ex: além-mar, aquém-oceano, recém-casado, bem-estar, bem-vindo, sem-vergonha);
- Em palavras consagradas (essa é para chorar!), excepcionalmente, como água-de-colônia, pé-de-meia, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, à queima-roupa, ao deus-dará, arco-da-velha). Agora, para saber quais palavras não sao consagradas e não precisam de hífen, continue rezando. Mas reze muito! Por que pé-de-meia continua com hífen e pé de pato, não? E cor-de-rosa, sim e cor de vinho, não? Eu disse no post anterior que havia pontos obscuros em algumas regras sobre o hífen. Como não somos chatos, vamos em frente;
- Em encadeamentos vocabulares (ex: a relação professor-aluno, o trajeto Tóqio-São Paulo, a ponte Rio-Niterói, o acordo Angola-Brasil).
Ufa! Espero ter contribuído em algo resumindo, nos dois posts, as regras sobre o nosso "tracinho" amigo que, como declarei, já deveria ter sido sacrificado junto com sua irmã inútil, a trema.
Qualquer coisa, estou por aqui. Até-a-próxima!

Fonte
http://educacao.uol.com.br/portugues/hifen-palavras-compostas.jhtm

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O hífen nosso de cada dia PARTE 1

As mudanças impostas pelas regras do novo acordo ortográfico da lingua portuguesa é obrigatória a todos os países que escrevem (e falam) em português. Resolvi abordar uma das alterações, a do nosso "amigo" hífen, e utilizar o Vide Letra para aprendermos, juntos, como esse "tracinho" deve ser utilizado no dia a dia (dia a dia, neste caso, sem hífen, pois ele não está substantivado). Vamos a um resumo basicão que pode nos ajudar em alguns casos, pois a regra após o acordo é extensa e, para falar a verdade, obscura sob alguns aspectos.
NÃO SE USA HÍFEN
- Prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente (ex: autoescola, aeroespacial, extraescolar). Já em auto-observação e micro-ondas usa-se, pois as vogais do primeiro e do segundo elementos são iguais.
- Os prefixos CO, PRE e RE juntam-se ao segundo elemento. (ex: cooperação, preestabelecer, reescrita).
- Quando o segundo elemento começar com as letras S ou R, elas devem ser duplicadas (ex: ultrassecreto, contrarregra, antirreligioso). Note que a duplicação dessas consoantes não altera a fonética da palavra.
- Se a noção de composição das palavras desapareceu com o tempo (ex: pontapé, mandachuva, paraquedas, girassol, paraquedismo, madressilva). Segundo o acordo, os verbos parar e mandar perderam a noção nesses vocábulos. Agora, para-brisa e para-choque continuam com hifen, pois, aqui, o verbo parar continua com o sentido "parar" (para tudo que eu quero descer!)
- Formas adjetvas, como LUSO, AFRO, ANGLO e LATINO (ex: afrodescendente, eurocomunista). Porém, usados como adjetivos pátrios, usa-se o hífen (ex: afro-americano, latino-americano, ítalo-brasileira). (Pra que facilitar?)
-   Em nomes geográficos (ex: América do Norte, Belo Horizonte, Cabo Verde). Porém, (de novo o porém!), quando o nome geográfico tiver prefixo GRÃ, GRÃO ou VERBO, usa-se o hífen (ex: Grã-Bretanha, Grão-Pará, Passa-Quatro).
-  Com MAL, quando o segundo elemento NÃO começar com H, L ou VOGAL (ex: malcriado, mavisto, malquerer, malpassado).
- Quando o BEM se aglutina com o segundo elemento. (ex: benfeitor, benquerer, benquisto, benfeito como substantivo). Porém (ai, porém!), bem-feito enquanto adjetivo (coisa feita com capricho) ou interjeição (bem-feito, por que quis aprender português?) leva hifen.
- Em locuções diversas (ex: à vontade, cão de guarda, fim de semana, dia a dia). MAS, se forem usadas como substantivo da oração, hifen nelas!
UFA! Não se preocupe. Se houver alguma coisa a acrescentar ou dúvida, envie-me um recado que resolveremos tudo juntos. Postarei mais dicas, aprenderemos unidos essa língua e sua gramática que tanto amo, mas que nos enchem de hifens.
Referências:
BECHARA, Evanildo - Moderna Gramática Portuguesa, 37a. edição
UOL Educação http://educacao.uol.com.br/portugues/hifen-palavras-compostas.jhtm

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Gaveta emperrada

Há gavetas que emperram para sempre. Por mais que se tente mudar isso, o trabalho mostra-se inútil e cansativo, e o ranger de madeira contra madeira, a lateral que insiste em se apegar ao móvel para manter trancado o segredo de anos acaba por nos vencer. As memórias como sementes secas não morrem e nem brotam, e lá permanecem guardadas. A chave que, um dia, a trancava, não é mais necessária. Foi corroída pela ferrugem e acabou quebrando dentro da fechadura. Impossível uma corrente de ar entrar para soprar o pó e dar espaço a fatos novos e imagináveis. E não adianta negar, fugindo da verdade: o conteúdo da gaveta lhe pertenceu, foi seu e, hoje, cheira a mofo. Já teve seu colorido, hoje é desbotado como um vestido muitas vezes lavado. Se a gaveta emperrou, foi porque sua utilização intensa existiu. Existiu. O conteúdo mofado é como o cadáver de um poeta.     


terça-feira, 27 de março de 2012

Eu falo como eu quero!

Ganhei de aniversário o livro do professor e escritor Marcos Bagno "Não é errado falar assim", editora Parábola, e foi um presente surpreendente. Ele defende, com ótimos argumentos, o português usado no Brasil, o comumente falado pela maioria dos brasileiros. Ousado e irônico, habilmente ele aponta as características de nossa língua portuguesa (a nossa, não a de Portugal), uma variação linguistica que deve ser aceita como natural e inevitável, haja vista as adaptações que uma lingua passa ao longo dos tempos. A ideia de que em Portugal se fala um português "correto" e de aqui no Brasil nós assassinamos a língua cai por terra em exemplos magníficos. Para ilustrar, eis um dos argumentos do livro: não se pode exigir que usemos a mesma regra de colocação prenominal de Portugal, como a bendita ênclise, quando nossa fonética nos pronomes oblíquos é tônica. Isso, segundo Bagno, autoriza-nos a dizer frases como "te amo", usando a próclise sem traumas. Em Portugal, os pronomes obliquos são átonos e aglutinam-se ao verbo como se fossem uma só palavra. Seria algo como uma proparoxítona (âmote). E ele vai longe nos exemplos, inclusive com excertos de textos publicados pelos letrados e errados gramaticalmente. Ele não dispensa a norma padrão, apenas alerta sobre as outras maneiras de falar que devem ser aceitas pelos puristas pelo simples fato de existirem. Deixar os milhões de brasileros falarem sua lingua à vontade e não uma língua imposta por uma gramática de mais de 500 anos não é ser "bonzinho" e muito menos deixar de educar, nas escolas, os futuros formadores de opiniões. É aceitar que a língua portuguesa brasileira é um fato, não é invenção. É mostrar que, além das normas padrão e culta, existe uma língua viva sendo usada corretamente, pois toda lingua tem sua gramática, do contrário ela não seria entendida. É acompanhar uma evolução linguística e cultural de um povo, do nosso povo. Sou revisor de textos e sigo a norma padrão, mas entendo perfeitamente a posição do professor Marcos Bagno: proibir falar errado é calar uma nação com cultura e língua particulares.Aceitar, nas escolas, a comunicação das crianças, principalmente as de periferia, e apresentar a elas a norma padrão sem preconceito linguístico (termo em moda, no momento) é deixá-las à vontade e transformá-las em cidadãs. Depois da leitura do livro do professor Marcos Bagno, minha vida não será mais a mesma. Ele me autorizou a "escrever pelos cotovelos". Divirta-se.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pelo menos tem a saudade

Pelo menos tem a saudade. Se há saudade é porque não foi em vão. É porque foi bom. Por isso ela, a saudade, vem preenchendo meus dias. Memória de coisas boas, dos cheiros e dos calores. Saudade das manhãs quando colhia a flor brotada na madrugada depois da noite de amor. Saudade da pele que me cobria e retinha a minha sensibilidade. Saudade de comer e descansar na digestão, absorvendo o útil. Pelo menos tem a saudade, essa companheira da solidão aparente. Ela não me deixa esquecer o lindo, rico e único passado fértil. Sim, fértil, pois do contrário a saudade não teria nascido, não estaria aqui, comigo. Vivi sem pensar se existiria o depois. E o depois chegou, em forma de saudade. Pelo menos tem a saudade. Pelo menos tenho algo para contar, lembrar e levar comigo. Só não tenho mais você. Então, já não sei mais o que tenho.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A mãe natureza



Para ser Mulher, seja forte. Seja homem, seja bicho, seja músculo. Para ser Mulher, seja doce, mas também seja salgada como as lágrimas derramadas pela cria quando ela rala o joelho jogando bola ou pulando o muro da escola. Seja tudo isso e ainda tenha ventre para receber o futuro, pois, do contrário, não haverá futuro. Seja otimista para segurar as pontas quando o outros não puderem suportar as próprias pontas. Seja bússula e farol, oriente. Seja cais, receba. Para ser Mulher tenha a certeza do caminho ideal quando não houver nem saída. Tenha sempre uma porta de entrada com café com leite e biscoito para uma tarde de chuva. Seja fenomenal, tenha a paz de uma japonesa e o grito de uma russa. Para ser Mulher. tem de se nascer Mulher. Não é fácil ser Mulher. E isto aqui não é a minha opinião sobre o que é ser Mulher. É um pedido. É quase uma oração rogando: por favor, seja Mulher e faça a nossa realidade continuar existindo. Mãe, o verdadeiro cordão umbilical é impossivel de ser cortado. É como querer cortar a natureza existente em mim, essa natureza ofertada por você e por Deus. Obrigado por ser Mulher. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

A carta

É uma carta. Apenas mais uma carta dentre as tantas que escrevemos por um tempo mágico e de amor que, agora, se renova. É mais uma página, de outra carta. Impossível histórias de amor terem fim. Romeu e Julieta vivem, até hoje, sua eterna história de amor e morrem por ela todos os dias quando as pessoas os materializam. Soubemos escrever (e ditar) nossas cartas como só os amantes podem fazer, pois somente eles usam palavras e tintas que ficam, e vivem, e morrem, e vivem. Nossa nova carta continuará sendo de amor. Amor renovado e mais forte. Amor transformado no sagrado de dois, que acabou sendo de tantos, esses tantos que conquistamos com nossas cartas e nosso ritmo. Amor imperial, como Marco Antônio e Cleópatra; intelectual, como Sarte e Simone de Beauvoir; mitológico, como Orfeu e Eurídice. Verdadeiro, como o nosso. Nenhum deles teve fim. Impossível, inimaginável achar que esta vibração quase celestial acaba. Nosso amor está incorporado na matéria que nos compõe. Tira-se nossa pele e mesmo assim ele estará lá, porque não é superficial. E, hoje, está maior e precisou renovar-se. Acredite. Ele exige um espaço maior e precisamos deixá-lo crescer. É o justo. Sei que seu crescimento está causando dor, mas a nova carta será, definitivamente, escrita pela verdade. A verdade de um amor.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ilustres companhias

Hoje acordei com a campainha gritando. E, em seguida, a voz que ordenava: levanta! vamos ao campo colher flores! Era, reconhecidamente, Ema Bovary, toda alegre e colorida, como uma manhâ de sol aconselha a ser. Abri a janela e, usando da razão, respondi: outro dia, hoje não. Ademais, seu marido me ligou, ontem, perguntando por você. Não estou a fim de confusão, Ema. E ela se foi sorridente, mesmo com a minha negativa em acompanhar-lhe. Essas mulheres! Tomei uma ducha e estava me servindo de uma xícara de café quando o telefone tocou. Era Raskólnikov, querendo saber se a velha, dona do apartamento que ele alugara, havia entrado em contato pedindo referências suas, haja vista que ele deu meu nome a ela. Disse que não, mas que se ela, porventura, entrasse em contato eu teria que ser sincero e dizer a verdade sobre ele, ou seja, que ele tinha umas ideias malucas sobre a classificação humana, onde uns valiam mais que os outros. Ele ficou irritado e desligou. Que manhã! Por fim consegui tomar o meu café e saí para a minha caminhada matinal. Na praça, encontrei meu amigo Bentinho em um estado lastimável, chorando. Fiquei preocupado, obviamente, e ele me contou que estava desconfiado de que sua esposa o havia traído com seu amigo Escobar. Deu tanta ênfase aos detalhes que passei a acreditar que a traição, realmente, havia acontecido. Como essas coisas sempre dividem as opiniões, tentei tranquilizá-lo. Quando ele se acalmou, decidi voltar para casa. Senti que o dia pedia um repouso caseiro. Em casa, quando eu estava preparando meu almoço, eis que outra visita me surpreende. Mas, agora, era a interferência mais ilustre de todas. Era meu amor. Veio com doce para a sobremesa e me abraçou. Fez-me companhia romântica e desligou a campainha e o telefone. E todas as histórias ficaram para depois.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Fantasia

Escolher a fantasia é um dilema. A fantasia que nos deixe pronto para enfrentar os dias e os compromissos. A armadura para nos proteger das pedras e dos carinhos. Mas nada que se apegue muito à pele para não nos esquecermos de quem, verdadeiramente, somos a cada dia. Somos muitos, com muitas fantasias. E o dilema é exatamente este: saber a fantasia do dia, saber quem somos naquele dia e saber que, amanhã, a fantasia será outra. Importante, também, é identificar a fantasia das pessoas, o que elas estão usando e saber compreender quando elas mudarem de fantasia. Maquilar o rosto com as cores corretas que nos representarão por algum tempo é sábio; substituí-las quando o momento exigir, é honrável. Mais nobre ainda é respeitar a troca de fantasias das pessoas, mesmo porque, estas pessoas também representam as nossas próprias fantasias, fazendo parte das cores que as formam. Vista a fantasia que lhe represente, que seja sua, constituída com a sua essência e com as pessoas e coisas que lhe pertençam. Respeite a mudança de roupagem de todos e resolva o dilema: nenhuma fantasia deve "grudar" na pele definitivamente e a melhor delas é aquela que, naquele momento, faça com que a vida seja plena. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Questão de ritmo...das ondas

Aproveite que estamos em janeiro, no verão, e visite o mar. Sente-se na areia, de frente para ele. Veja o ritmo das ondas, sua sincronia com o tempo. No fundo, tudo é uma questão de ritmo, como dizia Virginia Woolf. O importante não é, somente, a fabricação das coisas, a concretização das ações, mas também o ritmo em que tudo surge e acontece. Observando as ondas, há de se conhecer o seu ritmo próprio e, a partir daí, movimentar-se. Provavelmente, na praia, haverá outras pessoas. Observe como elas seguem um rítmo, um compasso que, aparentemente, nada tem a ver com você. Mas não é bem assim. O ritmo de tudo age em nós como as lambidas que as ondas dão na areia. O ar emanado do movimento provocado pelas pessoas nos afetam. Volte a atenção, novamente, para as ondas. Elas vêm ao seu encontro. Ou de encontro. As ondas quebram em nós para ajudar-nos, com um "empurrãozinho", a realizar aquilo que muito queremos, mas também nos atinge para destruir, derrubar. Tudo seguindo um ritmo, uma constância. O ritmo da natureza, que devemos respeitar e entender. Nem sempre virá para somar. Virá, às vezes, para ensinar. Tudo uma questão de ritmo. Foi observando as ondas do mar que Virginia Woolf escreveu um de seus livros mais famosos, "As Ondas", onde seis personagens formam, na verdade, uma pessoa. Um estudo demonstrando que a unidade humana é constituida de várias personalidades. Para entender isso, basta seguir o ritmo subjetivo das ondas. Divirta-se.   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Escrever para quê?

É impossível escrever. Você não vai ler, você se foi. No meio da frase quase escrita, paro e penso: não vai ler, você não está aqui. Bruscamente olho a página em branco e vejo que o branco está no vazio deixado por você. Você costumava estar aqui, eu ouvia você e você me lia, mas agora você se foi. Escrever para quê? Eu costumava rir de você e você parecia ser o lado alegre da vida, lado esse que me faltava. Com você, eu estava pleno de mim, completo com o que você me dava. Mas você se foi e o que sobrou não dá para escrever. Sem você para ler, não existe história comovente ou que valha a pena. Talvez tente ser seu biógrafo, mas isso só conseguirei se alguém puder me oferecer, novamente, alguma luz, porque nesta escuridão eu não enxergo, não dá para escrever. Até lá, sua biografia ficará comigo. Já a minha, não existe, porque não a escrevo mais. Não escrevo e nao falo. Sempre falei com palavras escritas e você sempre me disse palavras musicais. Éramos música e partitura. Mas você se foi e a palavra perdeu o sentido, deixou de ter forma e, consequentemente, não há meios de escrevê-la. De certo modo, isso é bom, pois escrever para nada é como exigir que um membro amputado cumpra com as suas obrigações. Deixei de escrever e nao terei testamento.  

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O professor sentimental

Orhan Pamuk. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em uma palestra em São Paulo. Foi uma hora de lições de literatura inesquecível. Professor de literatura na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Pamuk publicou, recentemente, o livro "O Romancista Ingênuo e o Sentimental", lançado aqui, no Brasil, pela Companhia das Letras. O livro é uma compilação de conferências ministradas por ele em Harvard. Na verdade, é uma conversa, onde o professor Pamuk ensina, brilhantemente, a arte de escrever um romance. Divide os autores de romances em dois grupos: o ingênuo, que escreve porque nasceu para escrever, sem pensar em formas ou técnicas, e o sentimental, que se preocupa (e muito) com o estilo, com a exposição das ideias, com a construção dos personagens e, sobretudo, com o "centro" que o romance terá. É nesse "centro", implicitamente ou explicitamente que estará o cerne de toda a história. Para Pamuk, o escritor ideal é aquele que tem um pouco de ingênuo e um pouco de sentimental. Segundo ele, devemos deixar a intuição emanar naturalmente de nossa escrita, mas a preocupação com o estilo e com a certeza das informações transmitidas deve ser considerada. É dessa maneira que os romances nos "fisgam" e nos emocionam. O leitor quer identificação com o que lê. Mesmo que a paisagem transmitida através do olhar do protagonista seja diferente da do leitor, o interesse despertado por uma boa história é possível, basta a ela conter elementos do dia a dia, como árvores, vento, objetos caseiros, casamentos, filhos e emoções mundanas. O leitor deve perceber o mundo em que o romance o inseriu. É mágico. Lendo um bom romance, passamos a acreditar na sua realidade, ao ponto de esquecermos, mesmo que por um curto período, a nossa. A história pode ser de dragões, de deuses marítimos, de mortos que andam, de objetos falantes, não importa. O que nos dará uma realidade quase palpável é um "centro" romanesco bem construído. O professor Pamuk faz isso de maneira singular. Ele faz com que nós, leitores, atravessemos aos poucos uma grande floresta, enxergando todas as árvores do caminho para que, lentamente, cheguemos ao "centro" de seus romances. É, talvez, a maneira mais linda dele nos apresentar a sua concepção da vida. Escrevendo para nós, leitores sortudos de poder receber suas lições. Eu tive a sorte de poder estar com ele, pessoalmente, por instantes. Agora, levo seus dizeres no coração...e na estante! Divirta-se!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Álvaro de Campos, o engenherio naval

O engenheiro Álvaro de Campos, o naval Álvaro de Campos. Desbravador dos mares, pois preferia a solidão das ondas do que a solidão de um impossível amor que nunca existiu e que lhe dava, por isto mesmo, a solidão almejada. Pagão, preferia acreditar na alma humana, pois era a única coisa que conseguia sentir que tinha: uma alma. Tão isolado, tão deprimido que tinha pena de si mesmo. Conheceu seu mestre Caeiro e deixou de ser uma máquina nervosa que não fazia nada. Começou a expressar-se em versos como quem começa a respirar, tudo por influência e inspiração oriundas de seu mestre Caeiro. Viva Caeiro, que resgatou de um mar sem fim, o engenheriro que era de pano. Deu-lhe um ar de vida e um homossexualismo assumido, que grita contra os deveres e a moral. Adorava tirar as plantas dos pés do chão usando ópio e cocaína. A Campos, Campos! Para sua Tabacaria e seus personagens de esquina você nunca será nada e não poderá querer ser coisa alguma que não seja todos os seus sonhos, sonhos do mundo todo. Navegue, vamos, continue! Sinta tudo de todas as maneiras, de todos os lados, seja a mesma coisa de todos os modos possíveis, mas seja!  Esqueça o supérfluo útil e navegue.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Pilar de Saramago

Assisti, há pouco tempo (e tardiamente), ao documentãrio "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, que, entre 2006 e 2009, conseguiu registrar, de maneira singular,  a intimidade e a paixão do casal formado pelo escritor português e nobel de literatura José Saramago e sua mulher, a espanhola Pilar Del Rio. O documentário capta para sempre (ainda bem!) o dia a dia do casal, sua rotina doméstica, seus compromissos e, também, o seu amor. Um amor tardio que chegou depois do sucesso literário do português, que também demorou a acontecer. Tardio, mas não menor. Pilar foi o suporte para que Saramago nos desse de presente tantas obras maravilhosas (já citei Saramago aqui, no Vide letra, e sempre o citarei). Ela o secretariava e o acompanhava, com vigor, em seus tantos compromissos. E foi o seu melhor remédio, salvando-o quando convalescia internado, época em que quase faleceu no meio da produção daquela que seria a sua última obra, "A Viagem do Elefante". Graças a Pilar temos, para nosso deleite e na íntegra, seu derradeiro livro. Pilar, a dedicatória mais justa e sincera da obra de Saramago. Repetindo o mantra dito pelo  escritor no documentário: Pilar, Pilar, Pilar. Seu Pilar e sua melhor personagem de amor.