terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pesadelo estranho

O travesseiro estava empapado do suor do sonho. Não do sonho. Do pesadelo. Não havia dormido muito bem; aliás, não dormiu nada. Parecia que o pesadelo estivera com ela à noite toda, cansando-a. Arrepiava-se quando pensava naquele homem estranho com cara de pedra, com uma cara sem rosto, com uma expressão de metal frio. Ele estivera deitado em cima dela, penetrando-a enquanto sua saliva caia em seus olhos que teimavam em permanecer abertos. Acordou com a garganta seca e com o corpo lavado de suor. Olhou para o outro lado da cama. Nestor já havia se levantado e estava na ducha. Apesar de esse fato ser estranho – Nestor há tempos havia deixado de tomar banho de manhã, como há tempos também havia se esquecido de se preocupar com sua aparência e, consequentemente, com a vida a dois -, estava tão exausta que deixou pra lá qualquer raciocínio. Deixar pra lá tem sido uma constante, ultimamente. Esse conformismo, esse deserto de planície em que o casamento se aloja com o passar dos anos faz com que o “deixe pra lá” vire regra. Diferentemente do sonho, em que seus olhos não se fechavam enquanto a mão do cara de pedra apertava seu pescoço depois de ele ter gozado dentro dela, nesta manhã pegajosa eles não se abriam direito. Acordou quando morreu, sedenta e rodeada de umidade. Levantou-se devagar, pesada, como se o gozo ainda estivesse em cima dela, e foi para a cozinha. Precisava beber água e preparar algo para o café da manhã, algo preto, bem preto. No caminho da cozinha, ao passar pelo banheiro, notou que a ducha ainda estava aberta. Nestor havia sido um homem fascinante desde o início. Ele conseguira fazê-la, inclusive, acreditar em Deus. Nunca havia entendido Deus. Inclusive nunca O temeu, condição básica, segundo ela, para que as pessoas acreditassem na existência Dele. Mas Nestor havia mostrado a ela que Deus existia e que poderia ser amor, caso a pessoa fosse feita de amor. E ela era o próprio amor. Nestor era amor. Depois as coisas foram mudando e os suores só existindo nos pesadelos. Com isso, Deus voltou a ser ininteligível. Bebeu água, pegou o pó de café bem preto e reparou que a porta de entrada do apartamento estava aberta. Como tudo estava estranho naquela manhã – para ser mais exato, o estranho já havia entrado na noite anterior, quando Nestor chegou tarde e bêbado e, aí é que está o estranho, com um bolo de laranja que supostamente deveria ser a comprovação da consideração que ele ainda tinha por ela – fechou a porta preocupada e voltou para o café preto. Diria a ele, depois que tudo estivesse escorrido pelo ralo, na ducha, que tomasse mais cuidado, pelo menos que tomasse cuidado com a porta. É um perigo, uma porta aberta. Uma porta aberta pode parecer um convite para sair, pode parecer um fim. Ela sempre pensa em como será o fim deles, dela e do Nestor. Se esse fim está longe, se está próximo ou se já chegou. Nestor estava demorando na ducha, demorando demais, e o café estava esfriando e deixando tudo preto. Estranho. Nestor nunca esqueceu a porta aberta, nunca mais tomou banho de manhã, ainda mais um banho demorado. Resolveu ir chamá-lo. De repente até contaria a ele sobre seu pesadelo e sobre como acordara suada de gozo, quase sufocando no travesseiro empapado e com a garganta doendo como se o sonho pesado realmente tivesse tentado estrangulá-la. Que pavor sentira do cara de pedra sem rosto, e que pressão seu corpo duro fizera nela! Estava cansada por causa da noite mal-dormida e por causa do que estava escorrendo de entre suas pernas. Chegou até a porta do banheiro e chamou: Nestor! Nestor! Nada. Olhou para o quarto e foi então que reparou na mão. Ela saia de baixo da cama e tinha os dedos um pouco fechados, como se tivesse tentado se agarrar à vida. A aliança de casamento que Nestor tanto se orgulhara em escolher no dia do noivado jazia no dedo inerte. Ela não teve tempo de fazer nada, nem mesmo de ouvir o registro da ducha sendo fechado. Sem quase se dar por nada, sentiu na nuca o hálito de metal frio da cara sem rosto e teve, estranhamente, seu inimaginável fim.                              

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Vou roubar sua fantasia

Vou roubar sua fantasia. Roubá-la e trazê-la para a realidade, a realidade que é o sonho de ser de todas as fantasias, o lugar onde elas se tornam úteis e palpáveis. Vou roubar sua fantasia para libertá-la do medo com que você a tranca e a anula. E apalpá-la. E lambê-la. Umedecê-la e dar-lhe sentido. Soltá-la e deixá-la livre neste carnaval; permitir-lhe gozar e viver. Com meu furto, sua fantasia deixará de ser sua para ser minha, pois a propriedade da fantasia nunca é de quem a sonha, mas sim de quem a liberta e a usa. A minha realidade será a transformação de sua fantasia em fato, fato este que será o seu prazer, a sua liberdade. Você gritará seu samba enquanto meu suor lhe refresca. Tudo real, tudo à mão e à disposição do desfile de nós dois. Assim, minha fantasia poderá entrar em você e gerar outras fantasias e outras realidades. Serei seu enredo e você, minha alegoria de viver!    

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A leitura e o leitor

Há tempos que o homem convive com a leitura. Os egípcios, na figura dos escribas, já "liam" sinais e os declamavam para a sociedade que não os sabia "ler". Era a época da leitura verbal, e o escriba era o soberano da informação, pois só ele entendia os tais sinais e as elaboradas marcações existentes. Hoje, a leitura é silenciosa, individual e privada. Ela cria no leitor um sexto sentido que, unido à sua inteligência, transforma-o em um ser com capacidades "sobre-humanas", como recordar algo importante ou ter bibliotecas inteiras memorizadas. Por isso, o ato de ler deve ser ensinado às crianças, para que elas, no futuro, sejam os cidadãos super-homens, com seis, nove, vários sentidos. Ensinar a ler não é forçar a criança a escrever a mesma frase várias vezes, ou pedir a que ela "cace" palavras com o mesmo número de sílabas em um texto, ou, ainda, mandá-la grifar os sujeitos de orações que estão soltas, sem nenhuma conexão entre elas. Isso afasta as crianças da leitura, pois são tarefas parecidas com castigos. Ensinar a ler é fazer com que o pimpolho sinta o aconchego do texto e o calor das histórias. Que ele seja atraído pela leitura e que a deseje. Desejando-a, sentirá prazer em ler. E não estou falando da leitura de textos na internet (rápidos e, muitas vezes, vazios) ou da leitura de documentos burocráticos. Essa leitura já ocupa 70% de nosso dia. Refiro-me à leitura cultural, aquela que serve para a mente e para o espírito, aquela que nos enriquece. Uma leitura que é infinita em seus significados e que é para sempre. Não deixemos que a época em que poucos liam volte. Lutemos para que a leitura continue sendo silenciosa e sagrada. Do contrário, viveremos em uma sociedade onde a figura do escriba egípcio voltará em forma de "chat", ditando-nos seus textos e deixando-nos sem opções de referências literárias.
Referências de leitura (valem MUITO a pena): "História da Leitura", de Steven Roger Fischer; "Do Mundo da Leitura para a Leitura do Mundo", de Marisa Lajolo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A extinção de uma cultura

Esta é a aldeã Gyani Maiya Sen. Ela nasceu no Nepal, tem 75 anos e é a última falante da língua kusunda. O povo da tribo kusunda, por sofrer preconceito de outros povos do Nepal que o consideram inferior, abdicou de sua língua. Poucas pessoas da etnia kusunda ainda existem (não chegam a 100, segundo o último censo nepalês, realizado em 2001), pois elas escondem a própria origem a fim de conseguirem melhor aceitação na sociedade. A última pessoa com quem Gyani usou a língua foi sua mãe, morta há 25 anos. Apesar de ter filhos, Gyani, pelo motivo acima, deixou de usar a língua kusunda. Agarrado há um tipo de esperança que só um linguista pode ter, o estudioso nepalês, Gautam Bhojraj, aprendeu o idioma kusunda e usa-o com Gyani para que a língua não desapareça. Um lindo trabalho para preservar toda a cultura de um povo. Se, por acaso, a língua kusunda desaparecer, a história, os costumes, a inteligência e a organização de uma sociedade sumirão com ela. Gyani está animada. Ela afirma que, se continuar falando em sua língua materna, ela não desaparecerá. Uma parte da história da humanidade está nas mãos, ou melhor, na boca de duas pessoas: da simpática Gyani e do destemido Gautam. Tomara que eles tenham sucesso, pois, do contrário, uma sociedade, hoje praticamente representada por uma senhora de boa vontade, será extinta. E com ela, um pedaço da memória dos homens. Fiquei comovido  com esta história lendo-a na revista "Língua Portuguesa" nr. 82, edição de agosto deste ano, da editora Segmento. Quiz dividi-la com você.

terça-feira, 31 de julho de 2012

É muita coisa!

Somente depois de bocejar e tirar o peso da noite que ficou sobre o cobertor, escovar os dentes, sorrindo e espumando para o espelho, tomar uma xícara de café e comer as migalhas do pão diet que esfriou por conta do vento que entrou pela porta que já estava aberta convidando-me para sair e malhar na esteira da rua enquanto os spams derrubavam minha conexão que só se restabeleceu quando voltei e sentei, com dor nas costas, na cadeira que diariamente me prende nas bordas de meu notebook, e depois que as horas viajaram para algum lugar sem me avisar, fazendo com que meu estômago se encarregasse de dar o recado que elas estavam indo, e que, depois de tanto eu ouvir seus gritos e resolver enterrá-lo com arroz e feijão para poder, restabelecido, ir ao supermercado findar uma lista de necessidades mais que humanas e voltar para casa com sacolas de encher armários, botar o cachorro pra fora e responder às chamadas do celular que estava trancado no bolso da calça que rasguei na correria para atender ao chamado da campainha onde o vizinho fazia questão de devolver a colher de açúcar que ele havia tomado emprestado na páscoa passada quando os netos dele estavam por aqui em visita e acabaram quebrando a minha vidraça com a maldita bola que ele havia comprado de presente pelo bom comportamento deles, é que percebi que ainda não havia feito o mais importante do dia: desejar BOM DIA ao meu dia.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

No ônibus

- Olá, tudo bem?
Levantei a vista que estava mergulhada na leitura do Valter Hugo Mãe em meu colo e olhei para a dona da mão que cutucava meu joelho (tem gente que cutuca). Não reconheci a mulher que sorria, feliz por ter reencontrado um amigo. Como tenho, às vezes, uma certa dificuldade para me lembrar de pessoas e, mais ainda, de seus nomes, devolvi-lhe o cumprimento, educadamente.
- Ai, desculpe-me! Achei que você fosse um personal trainer que eu conheci.
- Sem problemas, respondi sorrindo, retornando à leitura e ao universo do Hugo Mãe.
- É que (novo cutuque, já parecendo mais íntimo), como você está usando esse agasalho da Adidas, acabei me confundindo.
- Como disse, sem problemas, mesmo! Acontece (só os profissionais de atividades físicas podem usar agasalhos de ginástica?). Tentei voltar à leitura.
- O que você está lendo? (Tentando ler, você quer dizer.)
- Um livro de um escritor angolano, Valter Hugo Mãe.
- Ahhh..não conheço. É bom?
Bom? Bom, nesse instante percebi que minha leitura estava, definitivamente, interrompida. Também percebi que a mulher não estava interessada em trocar conhecimentos literários, mas em me conhecer.
- Estou adorando, ainda não havia lido nada dele (mas vou continuar tentando lê-lo, mesmo que o mundo me interrompa).
- Ah! Eu li muito quando estava na faculdade, há uns cinco anos. Li filosofia e livros técnicos, sou formada em turismo, e você? (Sou bacharel em paciência.)
- Sou administrador de empresas e curso pós em língua portuguesa e literatura.
- Ah! Que legal. É casado? Quantos anos você tem?
Veja, não sou contra a novas amizades, nem a uma conversa simpática em um coletivo, mas o rumo do papo iniciado com um cutuque estava estranho. Que perguntas são essas? Era como se eu estivesse preenchendo um questionário de algum site de relacionamento.
- Solteiro, 47 anos, respondi, já adivinhando a próxima pergunta.
- Solteiro? Nunca pensou em se casar, ter filhos? Você namora? (Na verdade, sou um ex-presidiário, solto recentemente, que foi condenado por assassinar pessoas que não têm um pouco de noção do "me deixa".)
- Não, não, estou bem assim.
- Meu sonho é casar e passar a lua de mel na Dinamarca (lugar ideal, pois você se parece com um personagem das histórias de Andersen). Em que ponto você vai descer?
Medo! Pânico! O que fazer? Certamente ela iria descer junto comigo e querer me acompanhar. E eu não estava a fim de ser convidado para uma lua de mel na Dinamarca, nem que Valter Hugo Mãe me acompanhasse.
- Na verdade, meu ponto passou, veja você que distração a minha.
E desci correndo quando o ônibus parou, com um "até logo" surpreendente.
Após descer, fiquei pensando sobre a abordagem da mulher e sobre a minha atitude. Não sei se agi corretamente evitando me aprofundar na conversa. Agi como age um habitante de cidade grande, cheio de individualismo urbano. Eu poderia ter conseguido uma nova amizade ou uma companhia para o meu dia. Fiquei surpreso pelo papo que surgiu do nada, no caso com uma desconhecida, e pela minha indignação por causa das perguntas diretas e íntimas. Isso serviu como um escudo, impedindo a aproximação de alguém que, de repente, queria apenas conversar e fazer um novo amigo. Prometo que os próximos "olás" e "cutuques" serão tratados de maneira mais receptiva. Afinal, o Valter Hugo Mãe estará sempre à mão, servindo, inclusive, como ponte para novas amizades.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mudar para não se congelar

Na lista das coisas de que eu não gosto está o inverno. Ou estava. Para mim, o inverno sempre teve cara feia, cinza, mofada, vontade de fazer nada, só de ficar em casa me cutucando. Hoje pela manhã, em minha caminhada na rua pós-treino (sai, banha invernal!), eu pude perceber, pela primeira vez, a estação do ano que, ate então, fazia-me rezar para o Santo Aquecimento Global, rogando-lhe para que a excluísse de meu calendário. Mudei de opinião. Andando sob a garoa cintilante de um céu cinza brilhante, o frio que respirei limpou-me por dentro. O movimento imperceptível das árvores parecia me dizer "olhe, o frio também é bom, pois, sem ele, não haveria a possibilidade de, daqui a algum tempo, por exemplo. as flores servirem-lhe de companhia". Daí, comecei a enxergar o inverno de outra forma. E fiquei orgulhoso de mim conseguir mudar de opinião. O que congela não é o inverno. O que congela é acreditar, sempre, nas mesmas coisas. É não se permitir enxergar as mudanças e mudar junto com elas. Renovar-se é necessário. Não deixe que os seus conceitos o envelheçam, para isso já basta o passar dos anos. Use um bom creme para as rugas e esteja sempre de braços abertos para receber o novo, evitando se congelar. Quem está calcificado em pedra dura é fóssil. Experimente a comida que você acha de que não gosta e o lado da calçada que você tem medo de andar. Ouse ler poesia, mesmo não entendendo nada (poesia que se entende não presta). Dance no ritmo da música que você julga vulgar, seja mundano. Seja mutável. Ame de maneira nova, renove sua ideia sobre o amor, para ter mais possibilidades de amar e de ser amado. Gostei do que percebi hoje. Não é o inverno que tem de me perceber, cabe a mim percebê-lo. Faça como eu: relacione, em uma lista, as coisas de que você não gosta e experimente-as de uma maneira nova. É ótimo ver a lista diminuindo de tamanho. Vale ligar para o vizinho chato e convidá-lo para uma cerveja. Quem sabe ele não aparece com um bom papo para espantar o inverno.