segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Uma ceia com convidados especiais
É, novamente, hora de reunir a família e os amigos ao redor da árvore de Natal e distribuir dedicações e apreços a quem, verdadeiramente, nos é importante. Todo final de ano convidamos para a ceia pessoas queridas e que são a razão de nossa felicidade. Dividimos com elas nosso pão e nosso amor, pois somos invadidos por um sentimento cristão especial. Por este motivo, sugiro que, neste ano, você aumente a sua lista de convidados para que a sua ceia seja ainda mais calorosa. Além disso, tenho a impressão de que as pessoas irão adorar. Você pode, por exemplo, convidar Fernando Pessoa e sentá-lo à mesa ao lado de sua tia solteirona para que ela, além de saborear o peru, possa escrever com ele cartas de amor ridículas a um futuro namorado. Também poderá incluir em sua lista de convidados Miguel de Cervantes e apresentá-lo a um tio depressivo que, há muito, deixou de enfrentar os moinhos da vida e que não parte mais para nenhuma batalha. Dou cinco minutos de conversas entre eles para que seu tio volte a vestir a armadura e sair cavalgando. Quanto ao seu sobrinho chato, arredio e que tem urtiga nos fundilhos, basta chamar Monteiro Lobato. Duvido que as reinações de um sítio habitado por boneca de pano e burro falante não o acalmem. Para seu irmão jovem e cheio de energia, convide Alexandre Dumas e transforme-o em um mosqueteiro. O vizinho gosta de contar mentiras de pescador? Não tenha dúvidas: convide Herman Melville. Ele tem um história de pescador que envolve uma baleia gigante que deixará seu vizinho morto de inveja! A companhia ideal para o vovô que já é um sábio é Thomas Mann. Eles perderão horas numa discussão sobre o humanismo. Só não recomendo uma companhia como Goethe para alguém que está sofrendo por amor. Se ele começar a falar sobre um jovem chamado Werther, a ceia poderá acabar em tragédia! E então? Não é uma boa sugestão? Entre panetones e chesters, podemos dividir o alimento literário que desde antes do nascimento de nosso Senhor já existia e unia os homens de boa vontade. Paz de Cristo! Divirta-se!
domingo, 11 de dezembro de 2011
Encontro com um ET
Ontem, 10/12, aconteceu no B_arco Centro Cultural, em Pinheiros, um dia de autógrafo do Lourenço Mutarelli para lançar seu novo livro (e marcar seu retorno aos magníficos quadrinhos depois de 10 anos de afastamento) "Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente", Companhia das Letras. Fui até lá para conhecê-lo pessoalmente e lhe dar um abraço. Foi um encontro extraterrestre. Acompanho há tempos a obra do Lourenço e ela sempre me perturbou muito, uma boa perturbação. Não foi dferente com este novo livro, que conta a história de um senhor, aposentado, que passa seus dias desmontando e montando máquinas de escrever e de costura e que perde a esposa em um trágico acidente. Com a vida abalada pela morte da companheira, o processo de isolamento se inicia. A rotina (e o esforço) de dormir e acordar orando para que suas vidas não mudassem em nada (ideia passageira, obviamente), bem como o hobby de desmontar e montar as máquinas, já não fazem mais sentido quando ele se encontra viúvo. Até que um dia, ele conhece um ET. Com isto tudo, Lourenço nos leva a refletir sobre as mudanças drásticas e inevitáveis que acontecem em nossas vidas, o encontro com nosso destino implacável e, mais do que isso, o encontro com nossos ETs interiores. Aquele sentimento novo, inédito, ocasionado por um fato também inédito, irá se transformar em um ET, em um ser que nunca vimos, nem nunca ouvimos. Para as perdas do futuro, não há preparação. Talvez haja algo que possamos fazer para que as recebamos de maneira mais suave e compreensiva, mas não somos donos de nossos destinos. A realidade crua e seca do Lourenço sempre me atraiu demasiadamente. Sua perturbadora visão do mundo, seus desenhos e prosas que não têm hora para serem apreciados (no café da manhã, no domingo ou na sala de espera de um consultório, suas histórias serão indigestas da mesma maneira) sempre me passaram uma cor cinza de concreto de cidade grande que me emociona. É a vida com seus ETs de presente e muito reais. Ontem, encontrei um ET e estive com ele por alguns minutos. Um ET que há muito está em mim, transformando-me desde que sua obra me arrebatou. Um ET original chamado Lourenço Mutarelli. De uma maneira bem especial, Lourenço me ensina como viver com meus ETs. Divirta-se!
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Elza, uma verdadeira Fitzgerald
De F.Scott Fitzgerald podemos dizer que sua "sombra" lhe dava segurança, companhia, apoio e, mais do que qualquer outra coisa em sua vida, completava-o, em uma simbiose magnífica. Sua "sombra" tinha nome, chamava-se Elza. E sobrenome: Fitzgerald. Também tinha uma posição mais do que honrada. Foi sua esposa até a morte. Morreu em um incêndio, num sanatório em uma das muitas internações pela qual passou. Elza era esquizofrênica. Seu corpo só pode ser identificado pelo sapato que ela usava no dia de sua morte. Elza sempre lutou para sair do espaço secundário em relação ao marido e que garantia a este a segurança e o material para escrever. Tentou as artes. Enquanto bailarina, sua professora dizia que ela já não era tão jovem para dançar, mas que, com tanta dedicação demonstrada, conseguiria se apresentar. F. Scott Fitzgerald interferiu e fez com que qualquer apresentação da esposa fosse vetada, alegando que o incentivo poderia agravar seu quadro pscótico. Começou a pintar, chegou a expor seus quadros, mas as obras não foram reconhecidas com valor. Elza passou a vida lutando contra sua doença mental e tentando tornar-se alguém com reconhecimento próprio. A luta do casal contra o álcool, as brigas constantes e os diversos interesses de Scott Fitzgerald por outras mulheres fez com que Elza acumulasse enfermidades. Ela chegou a finalizar um romance, o seu único romance, chamado "Esta Valsa é Minha" e, novamente, seu marido proibiu quaisquer estímulos positivos que fizessem com que Elza ganhasse sua propria fama e dinheiro. Na verdade, eles se fundiam em um. O externo quase não existia para eles. Eles se respiravam e a obra de F. Scott Fitzgerald teve como personagem principal, Elza Fitzgerald. Ela foi sua inspiração e tema, a força propulsora para que seus textos tivessem vida. E, mesmo assim, foi uma mulher que morreu tentando não ser a gêmea de seu marido. É um dos clássicos casos onde a mulher representa quase a totalidade da fama e do talento de seu companheiro. Talvez F.Scott Fitzgerald não apresentasse o sol na clareira para Elza por egoísmo, por medo ou por alguma combinação entre eles, mas uma coisa é certa: existem várias Elzas pelo mundo, várias "sombras" que, na verdade, criam e divulgam o novo e as revoluções.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Na minha época...
Ah! A minha época. Que saudades! Na minha época tudo estava em ordem e reinavam felicidade e tranquilidade sociais. Não sei se você conseguirá compreender tão áurea época, mas era uma época em que coisas absurdas como preconceito, assassinato, vingança e desamor não existiam, eram inimagináveis. Para você começar a ter uma ideia de como era a minha época, vocábulos hoje tão utilizados (e praticados) como separatismo e individualismo não constavam em nossos dicionários. Ah! A minha época. Eramos uma única raça, de homens, a raça humana. Sabiamos distinguir a raça humana das outras raças, que eram as raças de nossos amigos, os animais. A raça humana tinha algumas peculiaridades, como braços, pernas e cabeça em formatos diferentes das outras raças, que eram as raças de nossos amigos, os animais. Nós, da raça humana, comparávamos divertidos nossas diferentes alturas, cores, cheiros e sexos. Adorávamos perceber como essas variedades nos atraia e nos apaixonava. Com os amigos de outras raças, os animais, não era diferente. Eles também possuiam cores, alturas e cheiros diferentes. Era assim, em minha época. E éramos felizes. Os seres vivos, humanos e animais. Pra você continuar a entender como era a minha época, dou-lhe alguns exemplos. Nossas crianças não precisavam se defender de agressões de nenhuma espécie por parte dos adultos, pois estes zelavam por elas, haja vista que elas representavam a nossa extensão e o nosso futuro. Nossa religião era amarmos uns aos outros da maneira que o amor viesse. Nosso ar não era venenoso e os rios que banhavam a todos matavam a nossa sede. Não existiam doenças que implodiam o doente como se ele fosse uma grande bolha de pus. O toque entre os seres vivos existia para abraçar, cuidar, dar carinho e fazer amor e não para esganar ou matar. Ninguém pensava em levar vantagens ou elaborar armadilhas de vingança contra supostos ameaças ou ódios. E um olhar era apenas um olhar, sem intenção expiatória. Todos tinham seu lugar, os animais e os de nossa raça, os humanos. Ah! A minha época. Bem, eu poderia redigir um longo relatório sobre a minha época. Caso você queira algo mais detalhado, com mais informações, basta dizer. Pediram para que eu lhe enviasse este informe porque dizem que aí, na sua época, as coisas não andam muito bem.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Dezembro, mês de começar
Quase o número 12, novamente e mais uma vez. Quase dezembro de um ano que poderá ser lembrado pelo 100o. gol de Rogério Ceni ou pelo conflito no Egito. Pode ser, também, o último ano de nosso calendário se a profecia Maia se cumprir e nossa mãe Terra for para o "espaço". De qualquer maneira, é cedo para falarmos em retrospectiva 2011. Não é dezembro e o ano ainda não acabou, e não estou a fim de fazer com que o tempo passe mais rápido do que ele, aparentemente, já está passando. Também porque acredito que quem passa somos nós e não o tempo. O tempo está sempre aí, esperando quem vai chegar. Sendo assim, ainda temos dezembro para iniciarmos algo que protelamos ao longo do ano. O tempo é o mesmo, em dezembro ou em janeiro. Nenhum desses dois meses representam o fim ou o começo quando se trata de decidirmos o que queremos para nós. O tempo certo para erguermos a cabeça e falarmos para o universo o que queremos ser e fazer é agora. Aquele livro que não começamos a escrever, o planejamento de uma nova carreira, o pedido de desculpas ao vizinho ou aquele "eu te amo" engasgado, todas essas ações estão prontas para existirem desde já. E digo mais: elas terão mais poder e sinceridade quanto antes elas forem concretizadas. No futuro, pode ser que resida um arrependimento horroroso, um dó de nós mesmos por passarmos pelo tempo sem darmos ouvidos às nossas verdades. Promessas de início de ano só postergam o que, de fato, precisamos fazer agora. Início de ano é para ser comemorado com realizações concretas, e não com juramentos superficiais. Façamos com que dezembro seja um mês de início, de começo de progresso e de amor por nós mesmos.
domingo, 20 de novembro de 2011
Vida : doce como um sonho
Doce, cremoso e tem o tamanho necessário para transbordar a sua vida de realidade. Este é o sonho da padaria da esquina, aquele que enche a sua boca d'água e os seus olhos de brilho quando flerta com você da vitrine de onde se exibe. O sonho traz, com o poder de seu sabor, a realidade que você quer usufruir, aquela que é despertada quando você se depara com ele. De frente para o seu sonho, você tem a visão do que lhe proporcionará felicidade e prazer. É o seu sonho que lhe guia e lhe desperta para que você saiba o que fazer da sua vida. Sem o sonho, não há objetivo, nada lhe moverá para o sucesso e para a paz. Ouça, veja, sinta o seu sonho. A decisão é sua de abocanhá-lo, de saboreá-lo e de enguli-lo. Não se esqueça de dividi-lo com as pessoas que forem importantes para você, pois, desta maneira, elas também irão mostrar-lhe os seus. Sinta orgulho de seu sonho, de seu tamanho, de seu cheiro e de seu formato, pois ele é você. Se, nas diversas trajetórias até a padaria onde você encontrará o seu sonho, ele mudar repentinamente de formato ou de cor, não há problema. Significa que outro sonho está lhe namorando e necessitando de sua atenção. Se assim for, vá até ele e morda-o. Agora, abra os olhos e acorde para os seus sonhos. Tem uma padaria bem próxima a você cheia deles lhe esperando. O nome da padaria? VIDA. Divirta-se.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Há um processo contra você : CULPADO!
Conheci Franz Kafka através de uma de suas maiores obras: O Processo. Li este livro no início dos anos de 1990 e lembro-me de como ele me afligiu, de como sua história me deixou com uma sensação de "culpado". Kaka, um judeu tcheco que escrevia em alemão, preencheu, neste romance, suas personagens de dor e angústia, infligindo-lhes culpa e perseguição por conta de um sistema burocrático e cheio de imposições. Um sistema composto por leis e dogmas e que, sem nenhum motivo ou explicação, ordena e classifica os indivíduos e suas pequenas e escuras vidas. Este é o universo ordinário de Kafka. Cheio de ironias e culpas mandadas. Um universo que é capaz de criar um processo e inseri-lo na vida de qualquer cidadão. Mais do que nunca, O Processo de Kafka está nos tempos vigentes. Há processos nos regendo todos os dias em quaisquer circunstâncias. E, normalmente, o veredito final desses processos é : culpado. Somos culpados por sermos gordos, por sermos magros, pelo nosso gênero sexual, por possuirmos determinada cor de pele, por pertencermos a um grupo étnico específico e até por nosso saldo bancário. O dedo do processo está sempre apontado para nós. Há qualquer momento você poderá ser considerado culpado por ser assim, exatamente como você é. As imposições do sistema em que vivemos estão aí, pulsando contra nós. E o pior: elas são originárias de nossa postura, nascem do que achamos que é necessário a nós. Perigoso e fatal. Criamos nossas próprias armadilhas e somos culpados por elas. Movemos processos diários contra nos mesmos e contra os outros. É a realidade mundial. É a realidade de Kafka. Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio...A propósito: o desenho que ilustra minha postagem é de Kafka. Divirta-se!
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